quinta-feira, 23 de julho de 2009

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta.O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar.Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais.Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca.Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera.Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela deixou a seco.Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem noódio vocês combinam. Então?Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD, você adora brigar com ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome.Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai e não liga, ele veste o primeiro trapo que encontra no armário. Ele não emplaca uma semana nos empregos, está sempre duro, e é meio galinha. Ele não tem amenor vocação para príncipe encantado e ainda assim você não consegue despachá-lo.Quando a mão dele toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca gaita na boca, adora animais e escreve poemas. Por que você amaeste cara?Não pergunte pra mim; você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos filmes dos irmãos Coen e do Robert Altman, mas sabe que uma boa comédia romântica também tem seu valor.É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. Gosta de viajar, de música, tem loucurapor computador e seu fettucine ao pesto é imbatível.Você tem bom humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com um currículo desse, criatura, por que está sem um amor?Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda + você inteligente = dois apaixonados.Não funciona assim. Amar não requer conhecimento prévio nem consulta ao SPC. Ama-se justamente pelo que o Amor tem de indefinível.Honestos existem aos milhares, generosos têm às pencas, bons motoristas e bons pais de família, tá assim, ó!Mas ninguém consegue ser do jeito que o amor da sua vida é! Pense nisso. Pedir é a maneira mais eficaz de merecer. É a contingência maior de quem precisa.Arnaldo Jabor

domingo, 8 de fevereiro de 2009

O Analfabeto Político "Bertold Brecht"

"O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo." Nada é impossível de Mudar"Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo. E examinai, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar." Privatizado"Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence."
...

Crônica da vida

MOACYR SCLIAR
Grande escritor, Fitzgerald soube captar em sua ficção a ansiedade que todos temos em comum com a inexorável passagem do tempo, o envelhecimento, a morte. Gostaríamos de ser jovens para sempre, de viver para sempre. A natureza, porém, não quer saber de nossas fantasias. Dotou-nos de um implacável relógio biológico que o botox pode atrasar um pouco, mas não deter. Mais do que isso, há casos, verdadeiramente dolorosos, em que este relógio se acelera de forma absurda e cruel.***Estou falando de uma doença chamada progeria (o nome vem do grego geron, velho), congênita e muito rara: ocorre em um de cada 8 milhões de recém-nascidos. Em minha atividade médica, nunca cheguei a ver um caso. Melhor dizendo: vi, sim, um portador de progéria, um menino que morava no Partenon, mas vi-o na rua; era um diagnóstico que se impunha, mesmo a distância, por causa do tipo físico. A progéria é a doença da velhice prematura e acelerada: pele seca e enrugada, calvície, catarata, artrite, arteriosclerose rapidamente progressiva. E aí nós temos esta pungente contradição: uma criança velha. É algo que não podemos entender. Aliás, no filme a questão da passagem do tempo também não chega a ensejar uma reflexão: a trama romântica predomina. Mas mesmo que essa reflexão existisse, mesmo que um garoto com progéria pudesse elaborar sua condição, não creio que chegaríamos a uma resposta, a não ser de natureza religiosa, para a questão do tempo, do envelhecimento e da morte. Porque, em geral, tendemos a achar que nossa vida é curta para as indagações que nos acossam. Em seu leito de morte a escritora Gertrude Stein indagou às pessoas que ali estavam: “Qual é a resposta”?. Ninguém respondeu. Ela sorriu e disse: “Neste caso, qual é a pergunta”?. Já o conto de Fitzgerald termina com Benjamin Button bebê, retornando ao mistério do qual se originou: “Então ficou tudo escuro. O berço branco, as indistintas faces que se moviam a seu redor, o doce aroma do leite, tudo sumiu de sua mente” e ele volta ao nada. Ou seja: nascimento e morte se confundem.***Não, não dá para invejar Benjamin Button. O que dá para fazer é aceitar nossas limitações, é vivermos da melhor forma possível. Não podemos perder tempo com ódios, com rancores, com mesquinharias. A vida é curta para isso, deve ter resmungado Button com seus botões. Uma frase que ouve quem tem ouvidos sensíveis e mente aberta.-->
O tempo e a vida
O Curioso Caso de Benjamin Button, filme com Brad Pitt que é forte candidato ao Oscar, inspira-se no conto homônimo do escritor americano Scott Fitzgerald. E este, por sua vez, parte de uma fantasia não muito rara: nascer velho e ir ficando progressivamente mais jovem. Eu mesmo escrevi uma história a respeito, sem saber do conto de Fitzgerald, que aliás vale a pena ler. Já no começo, ele descreve a horrorizada surpresa do pai ao constatar que o seu recém-nascido filho é um velho mirrado, um velho que mira-o placidamente e pergunta: “Você é meu pai”?.Grande escritor, Fitzgerald soube captar em sua ficção a ansiedade que todos temos em comum com a inexorável passagem do tempo, o envelhecimento, a morte. Gostaríamos de ser jovens para sempre, de viver para sempre. A natureza, porém, não quer saber de nossas fantasias. Dotou-nos de um implacável relógio biológico que o botox pode atrasar um pouco, mas não deter. Mais do que isso, há casos, verdadeiramente dolorosos, em que este relógio se acelera de forma absurda e cruel.
***
Estou falando de uma doença chamada progeria (o nome vem do grego geron, velho), congênita e muito rara: ocorre em um de cada 8 milhões de recém-nascidos. Em minha atividade médica, nunca cheguei a ver um caso. Melhor dizendo: vi, sim, um portador de progéria, um menino que morava no Partenon, mas vi-o na rua; era um diagnóstico que se impunha, mesmo a distância, por causa do tipo físico. A progéria é a doença da velhice prematura e acelerada: pele seca e enrugada, calvície, catarata, artrite, arteriosclerose rapidamente progressiva. E aí nós temos esta pungente contradição: uma criança velha. É algo que não podemos entender. Aliás, no filme a questão da passagem do tempo também não chega a ensejar uma reflexão: a trama romântica predomina. Mas mesmo que essa reflexão existisse, mesmo que um garoto com progéria pudesse elaborar sua condição, não creio que chegaríamos a uma resposta, a não ser de natureza religiosa, para a questão do tempo, do envelhecimento e da morte. Porque, em geral, tendemos a achar que nossa vida é curta para as indagações que nos acossam. Em seu leito de morte a escritora Gertrude Stein indagou às pessoas que ali estavam: “Qual é a resposta”?. Ninguém respondeu. Ela sorriu e disse: “Neste caso, qual é a pergunta”?. Já o conto de Fitzgerald termina com Benjamin Button bebê, retornando ao mistério do qual se originou: “Então ficou tudo escuro. O berço branco, as indistintas faces que se moviam a seu redor, o doce aroma do leite, tudo sumiu de sua mente” e ele volta ao nada. Ou seja: nascimento e morte se confundem.
***
Não, não dá para invejar Benjamin Button. O que dá para fazer é aceitar nossas limitações, é vivermos da melhor forma possível. Não podemos perder tempo com ódios, com rancores, com mesquinharias. A vida é curta para isso, deve ter resmungado Button com seus botões. Uma frase que ouve quem tem ouvidos sensíveis e mente aberta.